10.3.26

 

Anotações sobre a oficina — Agnès Varda

No primeiro encontro da oficina vamos visitar a exposição de Agnès Varda. Depois da visita, cada aluno trará uma imagem importante para si e compartilhará um pouco sobre essa escolha.

A proposta é começar com algumas perguntas simples, mas difíceis de responder:

  • O que te fez trazer essa imagem e não outra?

  • O que te faz parar diante de uma imagem?

  • O que existe dentro do tempo dessa imagem?

Tenho pensado muito no tempo não apenas como duração, mas como um sentimento.

Em seu último filme, Varda by Agnès, Varda fala de três momentos importantes em seu processo de criação:

  1. Inspiração — por que fazemos um filme?

  2. Criação — como fazer? Quais meios escolhemos?

  3. Compartilhamento — para quem fazemos?

Ela diz:

“Não faço filmes para assistir sozinha. Fazemos filmes para mostrá-los. Não faço filmes pela mera necessidade de fazer imagens; é que eu, na verdade, tenho olhos curiosos.”

Talvez a curiosidade seja o verdadeiro motor das imagens.

Quando decidimos olhar de perto algo banal — uma rua, um rosto, uma casa, um gesto pequeno — o próprio ato de olhar já modifica aquilo que vemos. O cotidiano deixa de ser invisível.

A partir disso, quero propor algumas reflexões para o grupo.

Como o tempo na obra de Varda dialoga com nossos próprios interesses?
Como dialoga com nossos arquivos pessoais, nossas imagens guardadas, nossas memórias?

O que acontece quando voltamos para essas imagens e decidimos olhá-las novamente?

Também quero pensar a câmera como uma espécie de companhia.

Uma câmera pode ser uma companheira de vida?
Pode ser um testemunho da nossa existência?

Existe também algo que me intriga profundamente:
essa obsessão que muitos de nós temos de contar a própria história.

Que obsessão é essa?
E que coragem é essa de considerar que a nossa história — tão pequena, tão cotidiana — pode ser importante o suficiente para ser vista?

Talvez seja disso que trata essa oficina:
de olhar para os próprios arquivos, para os próprios fragmentos.

Porque memória talvez seja justamente isso:
um amontoado de fragmentos, imagens, restos e lembranças tentando formar alguma narrativa possível. E nos contentar com isso é dificil.

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