18.3.26

Em uma retrato a pessoa me olha de volta - e nesse olhar ela sustenta também a nossa imagem. 

10.3.26

 

Anotações sobre a oficina — Agnès Varda

No primeiro encontro da oficina vamos visitar a exposição de Agnès Varda. Depois da visita, cada aluno trará uma imagem importante para si e compartilhará um pouco sobre essa escolha.

A proposta é começar com algumas perguntas simples, mas difíceis de responder:

  • O que te fez trazer essa imagem e não outra?

  • O que te faz parar diante de uma imagem?

  • O que existe dentro do tempo dessa imagem?

Tenho pensado muito no tempo não apenas como duração, mas como um sentimento.

Em seu último filme, Varda by Agnès, Varda fala de três momentos importantes em seu processo de criação:

  1. Inspiração — por que fazemos um filme?

  2. Criação — como fazer? Quais meios escolhemos?

  3. Compartilhamento — para quem fazemos?

Ela diz:

“Não faço filmes para assistir sozinha. Fazemos filmes para mostrá-los. Não faço filmes pela mera necessidade de fazer imagens; é que eu, na verdade, tenho olhos curiosos.”

Talvez a curiosidade seja o verdadeiro motor das imagens.

Quando decidimos olhar de perto algo banal — uma rua, um rosto, uma casa, um gesto pequeno — o próprio ato de olhar já modifica aquilo que vemos. O cotidiano deixa de ser invisível.

A partir disso, quero propor algumas reflexões para o grupo.

Como o tempo na obra de Varda dialoga com nossos próprios interesses?
Como dialoga com nossos arquivos pessoais, nossas imagens guardadas, nossas memórias?

O que acontece quando voltamos para essas imagens e decidimos olhá-las novamente?

Também quero pensar a câmera como uma espécie de companhia.

Uma câmera pode ser uma companheira de vida?
Pode ser um testemunho da nossa existência?

Existe também algo que me intriga profundamente:
essa obsessão que muitos de nós temos de contar a própria história.

Que obsessão é essa?
E que coragem é essa de considerar que a nossa história — tão pequena, tão cotidiana — pode ser importante o suficiente para ser vista?

Talvez seja disso que trata essa oficina:
de olhar para os próprios arquivos, para os próprios fragmentos.

Porque memória talvez seja justamente isso:
um amontoado de fragmentos, imagens, restos e lembranças tentando formar alguma narrativa possível. E nos contentar com isso é dificil.


 Faz três dias que ando sonhando com viagem e com o carnaval. Saudade de sentir a liberdade que só um viajante carrega. Tem algo no meu coração que é cavalo de fogo. 

 Eu me identifico muito mais com um olhar próximo ao de Agnès Varda. Meu trabalho nasce do processo e da relação. Eu converso com as pessoas, muitas vezes apareço em cena, assumo a subjetividade e mostro o próprio caminho da construção das imagens.

Não me vejo como uma fotógrafa que está fora da cena esperando o mundo se organizar para capturar o momento perfeito. Eu não caço imagens. Prefiro habitar o cotidiano e o encontro.

O que me interessa não é necessariamente o instante decisivo, como pensava Henri Cartier-Bresson, mas a possibilidade de construir uma relação com o mundo e com as pessoas que encontro. As imagens surgem desse convívio, dessa escuta e dessa presença compartilhada.

Para mim, fotografar é menos sobre capturar um momento ideal e mais sobre abrir um espaço onde algo possa acontecer.






28.2.26

 uma fila de adolescentes se aglomera em frente a uma casa de show. penso por segundos na mãe que ali espera ao lado da filha. são as primeiras da fila. a mãe, aparentemente idosa, luta contra o vento que faz, apesar do sol tímido que resolveu aparecer. ela segura a bolsa com as duas mãos, como quem segura também o tempo. penso que talvez ela não viva muito. é cruel pensar isso, mas penso. depois logo em seguida vem uma memória antiga. estranho isso que o cérebro faz, como se quisesse me corrigir. tudo fica no corpo.

uma amiga, da minha idade, que tinha uma mãe idosa. eu também achava que ela não duraria. não é que a mulher durou? atravessou anos, doenças, aniversários. contrariando as estatísticas vazias da minha mente, essa pressa que tenho de prever o fim das coisas.

o carro segue, to indo pra uma gravação, penso que também estou tentando guardar alguma coisa do mundo antes que acabe. vejo na mesma calçada uma babá vestida de branco, coisa que me questiono toda vez que vejo, esse uniforme quase apagando quem ela é, cantando em direção ao carrinho de bebê que ela carrega. o bebê não entende as palavras, mas recebe o ritmo. penso que talvez seja assim que a memória começa, antes da linguagem.

isso me anima, a possibilidade de mil histórias vivendo paralelamente, cada uma sustentando seu próprio tempo, sua própria duração. a mãe e a filha na fila. a babá e o bebê. eu dentro do carro, pensando na finitude e ao mesmo tempo organizando imagens para que algo permaneça.

me sinto confortável em conseguir viver. confortável por ainda estar atravessando essas cenas, por ainda poder olhar e imaginar futuros para pessoas que não conheço. talvez viver seja isso, suportar a ideia de que tudo acaba e mesmo assim continuar olhando.

 talvez esse blog exista porque eu tenho medo. medo de que as histórias que amo se percam. medo de que os corpos que registro sejam varridos pela pressa do mundo. mas também existe porque acredito que a imagem pode ser uma dobra no tempo.

uma dobra onde minha avó ainda caminha pelas estradas que atravessou.
uma dobra onde as mulheres que fotografo continuam respirando.
uma dobra onde eu mesma possa ser encontrada, um dia, por alguém que ainda não nasceu.

tenho pensado na finitude como quem encosta a língua num dente mole. não chega a doer o tempo todo, mas está ali, lembrando que algo um dia cai.

trabalho com imagem. e talvez por isso a morte me atravesse tanto. fotografar é escolher o que merece continuar. é interromper o fluxo do mundo e dizer: isso fica. isso importa. isso não pode desaparecer sem testemunho.

pra nós, pessoas dissidentes, permanência nunca foi garantida. nossos corpos foram historicamente apagados, nossos amores varridos, nossas histórias contadas por outros ou simplesmente esquecidas. então quando falo de reconhecimento, não falo de vaidade. falo de existência. falo de permanecer.

minha fotografia não é só estética. é um gesto contra o desaparecimento. é uma tentativa de inscrever no tempo os corpos que amo, as alianças que construo, as mulheres que envelhecem ao lado de suas filhas em filas de shows, as babás que cantam empurrando futuros em carrinhos de bebê. é dizer que essas vidas são centrais, não laterais.

eu tenho medo do esquecimento. tenho medo de que um dia meu nome não ecoe em lugar nenhum. mas talvez o que eu realmente tema seja não ter deixado rastro. não ter feito parte ativa das referências do tempo que vivi.

o arquivo, então, deixa de ser acúmulo. ele vira corpo expandido. cada imagem é uma pequena recusa da morte. não no sentido literal, mas no sentido político. a imagem diz: estivemos aqui. sentimos. amamos. resistimos.

permanecer não é durar para sempre. é tocar o futuro de alguma forma. é criar uma dobra no tempo onde alguém, que ainda não nasceu, possa nos encontrar.

talvez seja isso que me move. não a imortalidade, mas a vontade de não atravessar essa vida em silêncio.


pra nós, pessoas dissidentes, o prestígio e o reconhecimento estão muito além de um ego desenfreado. o que buscamos é existência. é sermos visíveis para não sermos apagadas.

quando penso na minha fotografia, e mais além, no meu arquivo, entendo que meu grito não é vaidade. é permanência. é não atravessar essa vida sem deixar vestígio.

tenho medo de que não se lembrem de mim no futuro. e talvez por isso eu insista tanto em produzir imagem. quero fazer parte ativa das referências do tempo que estou vivendo agora. quero inscrever meu corpo e os corpos que amo na memória do mundo.




25.3.25

A partilha do saber

Tenho mostrado em sala um vídeo do Nego Bispo, onde ele fala sobre a partilha do saber. Geralmente começo as minhas aulas com esse vídeo com o objetivo de falar sobre como, para mim, é importante trocar e propor espaços presenciais de conversas e partilhas. Toda vez que a gente se encontra presencialmente, é como se estivéssemos fazendo força contrária a toda a distância que as redes sociais nos impõem. Sinto que me nutro de uma maneira imensa quando estou em sala, com pessoas que desejam falar sobre suas imagens ou imagens alheias.

A escolha desse vídeo para abrir minhas aulas já diz muito sobre meu olhar para a troca, para a construção coletiva do saber e para o valor do encontro presencial. A partilha é um movimento contra a fragmentação que as redes sociais nos impõem—é como criar ilhas de presença e atenção num mundo que nos dispersa o tempo todo. Estar com outras pessoas, compartilhar experiências e falar sobre o que nos atravessa por meio das imagens me fortalece e me faz acreditar ainda mais na potência desse espaço.

Resolvi retomar meu blog sem muito pensar. Preciso manter registrando o que penso e compartilhando. Acho que essa vontade de troca que tanto falo em sala também precisa existir aqui, nesse espaço escrito. O que me move é essa necessidade de conversar, de entender as imagens como fios que nos conectam, e de registrar o que sinto e percebo nesse caminho.





21.5.23

O que seria a liberdade, se não também espiritualidade?

O sentir como o maior segredo que carrego, onde aprendi a me comunicar com o mundo.

O sentir como uma ferramenta (palavra que acho pequena mas por falta de outra aqui a ponho) de todas as minhas transmutações. 

O sentir é como um punhado de células que se reproduzem o tempo todo, sem saber exatamente se existirá um final, um objetivo, mas que estão ali, inevitavelmente dando sentido a praticamente tudo.


 


19.5.23

Waves



 

Waves

 




uma fila de adolescentes se aglomera em frente a uma casa de show. penso por segundos na mãe que ali espera ao lado da filha. são as primeiras da fila. a mãe, aparentemente idosa, luta contra o vento que faz, apesar do sol tímido que resolveu aparecer. penso que talvez ela não viva muito. depois logo em seguida vem uma memória antiga. estranho isso que o cérebro faz. tudo fica no corpo. uma amiga, da minha idade, que tinha uma mãe idosa. não é que a mulher durou? contrariando as estatísticas vazias da minha mente. o carro segue, to indo pra uma gravação, vejo na mesma calçada uma babá vestida de branco, coisa que me questiono toda vez que vejo, cantando em direção ao carrinho de bebê que ela carrega. isso me anima, a possibilidade de mil histórias vivendo paralelamente. me sinto confortável em conseguir viver.

25.11.21

Bruna, o que temos em comum:

Se assustar com a impermanência da vida
E mesmo assim, aspirar amanhã
Ter vontade de viver mesmo quando o peito aperta em um grandíssimo ataque de ansiedade
Ter a necessidade em nomear as sensações
Sentir com todos os órgãos do corpo
Profundamente
Intensamente
Estar viva e gostar disso
Sentir tristeza e gostar disso também
Se surpreender com os outros
Precisar de carinho e não de grude
Mas gostar de toque
De pele
De gente
Cansar de gente
Olhar pra frente mesmo que precisemos usar lentes maiores das que temos
Para ampliar as coisas e não conseguir ter olhar pequenininho
Lutar todo dia para conseguir ver além do peito que sente
Pq é grande demais
Precisar de colo, e merecidamente, as vezes, de berço também
 


 

Deve se formar uma fissura muito grande quando perdemos alguém
Eu sinto em mim que um buraco apareceu que nem aquele que encontraram em Zacatepec
Meu coração parece pular de mim
e estar amassadinho, pressionado no peito
Eu sinto gosto de amargo no fundo da garganta, deve ser a gastrite atacada

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