19.1.17

cada sexo é um.

12.1.17

meu amigo escrevu um texto sobre o fim e o amor.


estou a nove minutos olhando para ele - pro texto - tentando entender o quão bizarro é o fim e o amor

eles dois caminhando juntos

só pra não ter que terminar nunca mais.

você poderia ser a mulher da minha vida. poderíamos comprar uma casa aos quarenta e três anos de idade, encher ela de amigos, ter filhos, receber a visita dos velhos compadres aos finais de semana com a geladeira sempre cheia. uma casa que guardaria todos os nossos segredos e nossas confissões as duas da manhã. você poderia ser a mulher com quem vou dividir muitas garrafas de vinho até ficar velhinha, aquela que aos setenta e sete vai se preocupar comigo tomando sereno, e vai levar um sueter caramelo para que eu possa me esquentar. poderíamos ser para sempre amadas por nós mesmas, juntas, trocando carícias em nossas espreguiçadeiras aconchegadas desde sempre uma do ladinho da outra.

a gente poderia se entender para sempre, descobrir o antídoto para manter nossa relação tão fluída como é, desde o primeiro minuto que te olhei de perto, que me deixei olhar, na verdade.
a gente poderia manter as coisas que são mais banais que o amor sempre por perto.





o fim é ordinário e clichê
Então agora você é solteiro. Está aí sozinho, reaprendendo a andar em dois pés, depois de ser por um tempo uma entidade quadrúpede, lenta, mas estável. Se vê dividido. Reduzido a uma boca, dois olhos, duas pernas e dois braços, que às vezes ficam preenchidos por vazio. Tem o momento em que parece que arrancaram futuro e passado, deixando só um presente que você não quer abrir. Tem o momento em que a vida parece uma árvore de Natal que nunca é desmontada, cheia de presentes. E tem o momento que nem um nem outro. Manhãs e altas madrugadas se tornam horas complicadas, quase insuportáveis. Objetos idiotas como xícaras de café sujas por uma semana e meias desparceiradas ganham o poder de te comover por um tempo, pode se preparar. Os domingos esticam de tamanho e ficam enormes como uma casa sem móveis. As fotos passam a ser lâminas. Como é mesmo que se vive em dose individual? Vá aos amigos. Eles vão te receber com o sorriso que diz “bem-vindo de volta”. Todo casal não deixa de ser uma ilha. Outros não vão falar contigo, e não é por mal, mas porque o telefone que está na agenda do seu celular nem é mais o certo. Faz tanto tempo assim? Não parecia. Vá à família. Seus irmãos, suas primas, suas madrinhas, seus avós, seus cachorros. Sua mãe e seu pai. Eles podem não te entender por um minuto do ano, e você discorda deles na maior parte do tempo, se tiver um quarto de sensatez em si. Mas, havendo justiça na vida, eles te querem bem. Vá ao cinema. Sente-se no escuro e, sem ninguém te ver, admita o clichê horroroso que é passar por isso. Como existir é comum! Escondido, abrace o seu drama, que parece maior do que o dos refugiados sírios --mas nunca diga isso em voz alta, nem escreva no Facebook. Vá ver algo que vai te fazer rir um pouco também, porque qualquer coisa vai te fazer chorar. O Adam Sandler tá aí para isso. Vá a tudo menos ao fundo de si mesmo sozinho. É difícil pensar em outra coisa que não em você agora, é verdade, mas periga você se perder. E tá tudo bem caso se perca um pouco. As coisas práticas que esperem, ou que se fodam se não puderem esperar um pouquinho. Vá ao encontro do seu corpo. Cansado, ele te faz lembrar que você é tripa e sangue e músculos outros que não o coração. Esporte é canseira. Balada é canseira. Conversas de quatro horas são canseira. E o cansaço é uma conquista só sua. Vá a encontros, quando for hora. Você vai ter que sair num date. E ser a melhor versão de você. Então lembre-se do seu melhor ângulo. Enfie-se na sua camisa mais bonita. Ensaie as mais impressionantes histórias que dá para ordenhar da sua vida sem mentir --muito. Essas são suas armas pra voltar à guerra que é amar. “Eu queria ser a pessoa que finjo ser no primeiro encontro”, já diria Gael Rodrigues, o itabaianense mais paulistano do centro. Mas, antes de sair, olhe-se bem no espelho. Reconheça os pedaços de você que vieram da pessoa que você amou até anteontem. Agradeça. Ela continua com você, por mais que não esteja mais aí. E siga em frente. Porque agora você é solteiro.

Chico

28.12.16

“A vontade de olhar para o interior das coisas torna a visão aguçada, a visão penetrante. Transforma a visão numa violência. Ela detecta a falha, a fenda, a fissura pela qual se pode violar o segredo das coisas ocultas. A partir dessa vontade de olhar para o interior das coisas, de olhar o que não se vê, o não se deve ver, formam-se os devaneios tensos, devaneios que formam um vinco entre as sobrancelhas. Já não se trata então de uma curiosidade passiva que aguarda os espetáculos surpreendentes, mas sim de uma curiosidade agressiva, etimologicamente inspetora.
É esta a curiosidade da criança que destrói seu brinquedo para ver o que há dentro.”

Gaston Bachelard em “A poética do espaço”

O tempo geológico, botânico e humano parecem ter-se cruzado aqui



 


15.12.16

o cinema? ele entrou na nossa mente. acabou com a gente. instigou uma idéia toda louca que eu vou falar, agora que tomei uns drinks moderninhos, e como são moderninhos dão esse tom. o amor não vai aparecer nos filmes. o contrário. ele não penteia os cabelos. ele usa uma peruca da vinte e cinco de março. embaraçada. ele está sentado nas ruas do centro vomitando. eles está nas calçadas do bexiga as três da manhã esperando o cara ali do balcão começar a levantar as cadeiras. ele cheira mijo. cheira resto de desinfetante popular. esqueça os filmes, até mesmo os nacionais. as cenas de sexo na pura pele. o amor deixa entrar um pouco de ar pela janela, só isso. e uma luz viva, uma fresta da noite. nada de amorzinho roterizado, normal. preguiça! esqueçam o cinema, meninas.  o amor é uma coisa. cinema é outra. esqueça os olhares em slow, as cenas que vem de longe se aproximando, os beijos sem fôlego.

21.10.16

voltei a pensar naqueles corpos de meninas abandonadas pelas ruas do estado do méxico - talvez essas lembranças nunca mais saiam de mim.

será que estou segura?

o afeto é seguro?


20.10.16

para sofia,

todo lugar deveria ser seu horizonte

pequeño paraíso ou pequena paisagem

desconfiar da imagem

uma multidão se apropria do corpo daquela mulher

garapa, postais para charles lynch





deslocamento ligado ao sertão forte.
quais as imagens produzidas pelo poder?
encenar o tempo livre


tatuar é perdurar o gesto de grafia no corpo
"quando o corpo é encontrado no mar, deve-se enterrar ou deixar o mar levar"

gabriel mascaro, sobre ventos de agosto - valongo, 2016
"quando ela respira duvida de si própria, descobre o tempo dela"

gabriel mascaro, no festival valongo, santos - 2016
talvez essa seja a maior tragédia pessoal para um fotógrafo: não ter tempo físico para fotografar tudo aquilo que o emociona.
deslocar
verbo
  1. 1.
    transitivo direto e pronominal
    tirar ou sair das juntas; desconjuntar(-se), desarticular(-se).
    "d.(-se) um ombro"
  2. 2.
    transitivo direto
    mudar (algo), tirando do lugar.
*PERDER TEMPO PARA GANHAR ESPAÇO*
deslocamento
caminhar é estar presente



5.10.16

Talvez embaixo deles tenham duas sereias, escorregadias e molhadas. Minhas mãos grandotas deslizam por cima delas,
labirinto aquático
tola eu que imaginei que seus seios fossem andorinhas famintas

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