uma fila de adolescentes se aglomera em frente a uma casa de show. penso por segundos na mãe que ali espera ao lado da filha. são as primeiras da fila. a mãe, aparentemente idosa, luta contra o vento que faz, apesar do sol tímido que resolveu aparecer. ela segura a bolsa com as duas mãos, como quem segura também o tempo. penso que talvez ela não viva muito. é cruel pensar isso, mas penso. depois logo em seguida vem uma memória antiga. estranho isso que o cérebro faz, como se quisesse me corrigir. tudo fica no corpo.
uma amiga, da minha idade, que tinha uma mãe idosa. eu também achava que ela não duraria. não é que a mulher durou? atravessou anos, doenças, aniversários. contrariando as estatísticas vazias da minha mente, essa pressa que tenho de prever o fim das coisas.
o carro segue, to indo pra uma gravação, penso que também estou tentando guardar alguma coisa do mundo antes que acabe. vejo na mesma calçada uma babá vestida de branco, coisa que me questiono toda vez que vejo, esse uniforme quase apagando quem ela é, cantando em direção ao carrinho de bebê que ela carrega. o bebê não entende as palavras, mas recebe o ritmo. penso que talvez seja assim que a memória começa, antes da linguagem.
isso me anima, a possibilidade de mil histórias vivendo paralelamente, cada uma sustentando seu próprio tempo, sua própria duração. a mãe e a filha na fila. a babá e o bebê. eu dentro do carro, pensando na finitude e ao mesmo tempo organizando imagens para que algo permaneça.
me sinto confortável em conseguir viver. confortável por ainda estar atravessando essas cenas, por ainda poder olhar e imaginar futuros para pessoas que não conheço. talvez viver seja isso, suportar a ideia de que tudo acaba e mesmo assim continuar olhando.
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