tenho pensado na finitude como quem encosta a língua num dente mole. não chega a doer o tempo todo, mas está ali, lembrando que algo um dia cai.
trabalho com imagem. e talvez por isso a morte me atravesse tanto. fotografar é escolher o que merece continuar. é interromper o fluxo do mundo e dizer: isso fica. isso importa. isso não pode desaparecer sem testemunho.
pra nós, pessoas dissidentes, permanência nunca foi garantida. nossos corpos foram historicamente apagados, nossos amores varridos, nossas histórias contadas por outros ou simplesmente esquecidas. então quando falo de reconhecimento, não falo de vaidade. falo de existência. falo de permanecer.
minha fotografia não é só estética. é um gesto contra o desaparecimento. é uma tentativa de inscrever no tempo os corpos que amo, as alianças que construo, as mulheres que envelhecem ao lado de suas filhas em filas de shows, as babás que cantam empurrando futuros em carrinhos de bebê. é dizer que essas vidas são centrais, não laterais.
eu tenho medo do esquecimento. tenho medo de que um dia meu nome não ecoe em lugar nenhum. mas talvez o que eu realmente tema seja não ter deixado rastro. não ter feito parte ativa das referências do tempo que vivi.
o arquivo, então, deixa de ser acúmulo. ele vira corpo expandido. cada imagem é uma pequena recusa da morte. não no sentido literal, mas no sentido político. a imagem diz: estivemos aqui. sentimos. amamos. resistimos.
permanecer não é durar para sempre. é tocar o futuro de alguma forma. é criar uma dobra no tempo onde alguém, que ainda não nasceu, possa nos encontrar.
talvez seja isso que me move. não a imortalidade, mas a vontade de não atravessar essa vida em silêncio.
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